Magic Talking Looking-Glass
Tuesday, October 31, 2006
 
diários antigos.

novembro de 2004.

Então eu li um texto de Lilo que falava justamente sobre a automutilação do amor. E me pus a pensar: se amar pressupõe perda — de parte de nós mesmos que doamos ao outro —, exatamente quanto de nós já deixamos por aí, espalhados em nossos ex-amores? E quanto dessa perda nós carregamos para sempre, pesando sobre os nossos futuros-amores?

Os ex tudo que povoam nossas histórias (com h mesmo) pessoais. Ex-maridos, ex-namorados, ex-melhores amigos. Essas pessoas a quem doamos de bom grado pedacinhos de nós mesmos, nacos por vezes tão vitais, especiais e únicos, o quanto de nós eles levam, e incorporam a suas vidas? E como esse buraquinho em nós vai latejar?

Parece-me que a troca de sentimentos humanos é um rio contínuo de tirar daqui e por lá. Se o amor que eu sinto por alguém transfere, por força e corpo próprios, uma parte de mim ao outro, que por sua vez me dá um pouco de quem ele é, essa pessoa (imperfeita) que hoje eu sou é uma espécie de monstro de Frankenstein. É feita de pequenos arremedos, pequenas peças costuradas aos trancos e barrancos, sobrando muito aqui, faltando um pouco lá, onde o outro tirou demais e eu me esqueci de preencher outra vez.

Até aí me provocou o texto que eu li. Quando eu amo, eu me dou, e isso vai doer, é claro. Tirar de mim para dar ao outro dói muito. Mas dói gostoso. A dor é velada, e imediatamente aplacada pelo que se recebe quando o amor é recíproco. E eu já recebi presentes inomináveis, pedaços tão especiais de pessoas tão especiais a quem eu nunca vou conseguir propriamente agradecer.

Só que o processo não se perfaz aí. Por causa do amor de amanhã.

E porque o texto mencionava filmes, eu também quero apontar um: Amores Brutos, e o “Porque também somos o que perdemos”. São essas cicatrizes das nossas perdas passadas, que coçam nos nossos amores presentes, incomodam na nossa capacidade de reconstrução. Carregamos conosco as feridas e os ungüentos. Porque são marcas eternas, que milhares de beijinhos não serão capazes de sarar, nem há crise de ciúme que arranque e tire de nosso corpo o que de bom elas deixaram. O quanto de outra, daquilo que ela deixou em meu amor, eu amo também, porque já faz parte de quem ele é? O quanto de meu ex-amor se incorporou ao que eu sou e é hoje também amado? Do que eles provocaram, do que eles trouxeram, do que eles roubaram. É um mistério insondável.

De tudo o que perdemos, de tudo o que ganhamos, percebo que não somos. Ser é um verbo que só se aplica ao núcleo. Todo o resto é estar, é ser hoje apenas, porque ainda não chegou a ser perdido, nem a nada foi acrescentado. Será que o importante mesmo é amar o núcleo pelo que ele é ou amar também é beijar as cicatrizes, e louvá-las pelo que elas representam?

Na dúvida, ficam versos de Neruda. Belos e utópicos; é o que todo mundo queria poder dizer. Esse pequeno boneco de recortes aqui ainda tem muito que aprender. Sempre.

Antes de mim
Não tenho ciúmes.

Vem com um homem
Às tuas costas,
Vem com cem homens entre os teus cabelos,
Vem com mil homens entre teu peito e teus pés,
Vem como um rio
Cheio de afogados
Que encontra o mar furioso,
A espuma eterna, o tempo!

Traz todos eles
Para onde eu te espero:
Sempre estaremos sós,
Sempre seremos tu e eu
Sozinhos sobre a terra
Para começar a vida!
 
 
A Solidão e Sua Porta


Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha)
Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

Arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.

Carlos Pena Filho
 
 
Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz

Não me deixe só
Tenho desejos maiores
Eu quero beijos intermináveis
Até que os olhos mudem de cor

Vanessa da Matta. Não me deixe só.
 
Monday, October 30, 2006
 
seu olho me olha
mas não me pode alcançar

Maria Bethania. Reconvexo.
 
 
resignation. time. essas parecem ser as palavras que a vida quer me dar a conhecer agora. sob todos os aspectos.

o que é, de fato, resignar-se? pra mim, além de conformar-se, condescender, tem muito de fraqueza, covardia e cansaço. mas talvez isso seja só o que meu espírito sempre contestador me fez acreditar até aqui.

talvez eu esteja, só agora, aprendendo a relativizar também a fraqueza, o cansaço e a covardia, evoluindo para a noção mais madura de outra palavrinha mágica: preparação.

como vou saber?
 
Sunday, October 29, 2006
 
i wonder.
 
Saturday, October 28, 2006
 
On the joys of sisterhood:

Acordei hoje meio tristinha, com a moral em baixa. Acordei e fui pra cama da Mari, onde ficamos deitadas conversando até quase meio dia. Um ponto no score de minha felicidade.

Depois recebi uma visita surpresa de Loulou, que apareceu sem avisar aqui em casa, para alegria de meus pais (que a adoram). Loulou, mais uma vez, mostrando claramente que (pres)sente quando eu preciso de sua companhia. Ficamos namorando minha bolsa e meus sapatos recém adquiridos (bolsas e sapatos não trazem felicidade, mas deixa você muito mais próxima dela), assim como o vestidinho maravilhoso que ela vestia. Dois pontos no score de minha felicidade.

À tarde eu e Mari assistimos um episódio de Grey´s anatomy que eu baixara da net. Quando acabou (eu com o rosto coberto de lágrimas em conta de Mer&Der - yep, i AM pathetic), Mari me chamou pra tomar um café. Na garagem, pediu para tirar meu carro até a portaria. Considerando que a menina só tivera 2 aulas de direção na vida, e que meu carro zerinho estava em grave risco, permiti que ela manobrasse o bichinho, o que ela fez muitíssimo bem. Vários pontos no score da minha felicidade.

No caminho ela observou que meu cabelo novo lembrava o de Wendy em Bonecas Russas.

Fomos pro Paço: meu cappucino querido, olhada na Vogue com Cate Blanchett na capa, mimos na Occitane. Depois pegamos filmes e compramos pão. Score máximo de felicidade.

Minhas duas irmãs (a de sangue e a de amor) me fazem esquecer qualquer amanhecer triste, e me transformam na mais feliz das criaturas incompletas.
 
 
i just miss you so bad it hurts.
 
Friday, October 27, 2006
 
Outra tarde eu estava entrando na locadora quando ouvi a atendente gritar lá de dentro: "aline! hoje tem House!". Isso me fez pensar no quanto é boa a sensação de familiaridade, especialmente quando se está mais fragilizado. Tudo na minha vida gira com essa nota de costume: os amigos de década, o oftalmologista da família inteira, a ginecologista que é a mesma desde a primeira consulta, os vizinhos há quase quinze anos. Todo mundo adora se sentir em casa, claro.

Com o cabeleireiro ontem foi a mesma coisa. Desde que descobri Mário não concebo cortar o cabelo com outro. Pra mim é um spa: fico a tarde inteira naquele casarão antigo, no absoluto silêncio. É um dos poucos lugares onde ninguém te aperreia nem tem alguma musiquinha insuportável tocando no fundo. É um ritual. Quando chego, ele sempre me faz sentar por uns bons minutos, pra respirar (só o trânsito até chegar lá já me exaspera). Depois conversamos amenidades, e ele pergunta por mariana e mamãe. Sento-me na cadeira e começamos a discutir o que fazer com o cabelo. Ele faz algumas ponderações, depois pede licença para pegar nos fios e examiná-los com cuidado. Ontem sugeriu que eu não prendesse tanto o rabo de cavalo: o hábito deixava marcas visíveis.

Só depois pergunta se pode passar a tesoura.

Ontem , quando Mário perguntou se eu queria mudanças, percebi que tinham sido muitas. Pedi então que ele cortasse o quanto achasse necessário, porque eu queria me livrar de todo o cabelo velho. Familiaridade é ótimo, mas o tempo todo é coisa de gente que já morreu e ainda não se deu conta; a estranheza é um antídoto precioso e necessário.

Mário me olhou assustado, confirmou se era isso mesmo o que eu queria, se poderia cortar. Disse-lhe que sim, claro. Ele sorriu, esfregou as mãos com um sorriso de menino treloso, e soltou: "eu adoro quando ela chega aqui assim, com essa vontade toda".

E eu me senti limpa vendo cair longas mechas do meu cabelo; essas mechas que tinham vivido tanta coisa, e que ainda guardavam lembranças.
 
Wednesday, October 25, 2006
 
"Na verdade eu não tinha uma idéia muito exata de quando isso aconteceria. Confiava em que se notaria, quando a vida desse uma certa volta, e viesse apenas de fora, assim nítido e óbvio, e nada se pudesse interpretar mal. Nada simples, ao contrário bastante exigente, e complexo, e difícil, mas mesmo assim visível. Esse ilimitado tão singular da infância, o desproporcionado, o nunca-bem-prevísivel, isso estaria superado. Na verdade, não conseguia imaginar por quê. No fundo tudo continuava crescendo, fechando-se de todos os lados, e quanto mais eu olhava para fora mais as coisas se revolviam em meu interior. Sabe Deus de onde provinham! Provavelmente, porém, estavam crescendo para alguma forma externa, e depois cessariam, de um golpe só. Era fácil observar: que os adultos se inquietavam um pouco com essas coisas; andavam por ali, faziam julgamentos, agiam, e quando estavam em dificuldades era culpa das circunstâncias externa."

Rainer Maria Rilke. Os cadernos de Malte Laurids Brigge.
 
Tuesday, October 24, 2006
 
Fui hoje comprar um presente para o casamento de meu ex marido. Rodei a loja um tempão, tentando encontrar algo que, ao mesmo tempo, dissesse o quanto de alegria eu desejo para sua nova vida e o quanto lhe sou grata pelo seu apoio incondicional.

André me ensinou que a amizade verdadeira (que é amor, no fim das contas), não precisa de um bando de coisas; só precisa de doação. Que erros podem ser reparados. Quer é possível perdoar, e, assim, curar dores terríveis. Que o rio da vida sempre continua.

Nesse meu ano tão atribulado, André me deu ombro nos momentos mais difíceis. Quando me desesperei, ele mostrou que eu não precisava me sentir desamparada. Quando tive medo, ele me fez rir para espantar os demônios. Quando eu fui vítima de maledicência, ele me defendeu.

Gosto de pensar que pouca gente no mundo consegue ter o que temos, depois de um divórcio. O respeito que construímos depois que nos refizemos. As "piadas internas" que mantemos. Fico muito feliz que ele tenha encontrado alguém como Fátima, que o faz enxergar o futuro sempre com olhos otimistas. E não digo isso pra parecer boazinha não, que eu nem carrego essa fama, nem dela preciso. Estou mesmo, genuinamente, feliz por ele ter encontrado seu caminho. Desejo aos dois toda a sorte que houver nessa vida. Encontrar um amor é muito difícil, e quando acontece... bem... quando acontece nunca mais a vida é a mesma.

Acabei escolhendo um presentinho bobo, mas alegre. Tão alegre quanto desejo que a vida seja: para Fátima e André, para os bebês, e para mim também; por que não?
 
Sunday, October 22, 2006
 
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer

Chico Buarque. Sem fantasia.
 
 


Fotos embaçadas de uma outra vida.

Dit weet jy goed.

 
Friday, October 20, 2006
 
Ainda leio Anna Karenina. Comecei em abril, e ainda estou no primeiro terço; tinha parado por motivos diversos. Mas não desistirei: o livro é excelente, e terapêutico. Quem sabe, lá no fundo, eu não sinta que, by the time I get to the end, talvez um outro final surja para a pobre Karenina, um final que eu possa importar para a minha vida?

" ´it is too early for Betsy´, she thought, and glancing out of the window she saw the carriage, and sticking out of it a black hat and Karenin´s familiar ears. ´How unfortunate! Can he mean to stay the night?´ thought she, and so awful and horrible appeared to her the consequences that might result therefrom that, without a moment´s hesitation, she went out to meet him with a bright beaming face; and feeling within herself the presence of the already familiar spirit of lies and deceit, she gave herself up to it at once and began speaking without knowing what she was going to say."

Leo Tolstoy. Anna Karenina.
 
Tuesday, October 17, 2006
 
"- Não sei se é amor o que sinto por Fukuda. Mas nunca na vida dependi tanto de alguém como dependo dele. A verdade é que ele pode fazer comigo o que bem entender.

Não dizia isso com a alegria ou a euforia de alguém, como o Trujimán, que descobriu o amor-paixão. Antes, estava alarmada, espantada de que acontecesse uma coisa dessas com uma pessoa como ela, que se considerava acima de tais fraquezas. Em seus olhos cor de mel escuro havia algo de angustiado.

- Bem, se ele pode fazer como você o que bem entender, é porque está apaixonada, finalmente. Espero que o tal Fukuda faça você sofrer do mesmo jeito que você me faz, há tantos anos, mulher glacial...

Senti que segurava minha mão e a apertava.

- Não é amor, juro. Não sei o que é, mas isso não pode ser amor. Uma doença, ou melhor, um vício. Isso é Fukuda para mim. "

Mario Vargas Llosa. Travessuras da Menina Má.
 
 
ah, e ele ainda riu outra vez: um dvd de 2004.

eu feliz. eu na piscina, brincando. um documentário de um tempo em que eu ainda era inocente.
 
 
outro dia comentei sobre o passado que ri.

hoje visitei um amigo, e tive um susto: na parede, um quadro que eu julgava que jamais veria de novo na vida.

era o passado rindo, de uma maneira especialmente cruel.
 
Monday, October 16, 2006
 
Dentro do círculo
Faço-me extensa.
Procuro o centro
Me distendendo.
Túlio não sabe
Que o amor se move
No seu de dentro
E me procura
Movente, móvil
No lá de fora.

Túlio de mim
Tem se movido
Tão desatento
Como se a nuvem
Já se movendo
Buscasse o vento
Como se a chuva
Toda molhada
Buscasse a água.

Hilda Hist.
 
 
Les amours perdus
Ne se retrouvent plus
Et les amants délaissés
Peuvent toujours chercher
Les amours perdues
Ne sont pas loin pourtant
Car les amants délaissés
Ne peuvent oublier
Tous les serments de cœur
Tous les serments d'amour
Tous les serre-moi serre-moi dans tes bras

Serge Gainsbourg. Les Amours Perdues.
 
Saturday, October 14, 2006
 
Estávamos tão melancólicas, as duas sozinhas no meio do feriadão. Decidimos então que teríamos um dia feliz: almoçamos por horas no terraço do Oficina (e aí, coincidências), saímos no fim da tarde ouvindo Lou Reed cantar "Pale Blue Eyes" enquanto dirigíamos pela cidade e fomos ao shopping center. Fizemos, ora essa, tudo o que poderíamos fazer para lembrar que a felicidade é presente em coisas tão pequenas quanto comprar um vestido novo, comer torta de chocolate Veneza com café expresso, e jogar conversa fora com Tomaz.

"Thought of you as my mountain top
thought of you as my peak
thought of you as everything
I´ve had but couldn´t keep
I´ve had but couldn´t keep. "
 
 
you know what I mean.





somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands

-- e. e. cummings
 
Thursday, October 12, 2006
 
Polanski. Acabei de ver Lua de Fel. Que coisas incríveis esses filmes de Polanski.

Os filmes dele sempre me deixaram incomodada. O Bebê de Rosemary é fantástico: lembro que da primeira vez que vi, a musiquinha do começo já me dava arrepios. Aquele lalala infantil. Não consigo assitir sozinha, e aquela cena do fígado (eu que tenho verdadeira ojeriza a vísceras) é de matar. Outro que me deixou estranha foi Repulsa ao Sexo... Deneuve tão absurdamente linda e perdendo a razão. Verdade que O Último Portal foi decepcionante, mas, ainda assim, foi muito forte na primeira metade. O Pianista é clássico, e também não há quem não se perturbe com a atmosfera de perda do filme. Talvez o mais fraquinho que eu tenha visto seja O Inquilino.

Mas foi somente com Lua de Fel que eu entendi a razão do incômodo-Polanski. Passei o filme todo sendo assediada por imagens, por lembranças ruins. Como se estivesse cavando feridas, me machucando. E só percebi que aquilo era efeito do filme, e não do meu estado de espírito verdadeiro, quando tive ataques de riso. Gargalhei na terrível cena em que Peter Coyote humilha, em uma festa, uma Emmanuelle Seigner acabada de sofrimento e em frangalhos. É uma cena tristíssima, e eu ri muito. Ri alto. Ri o riso que o incômodo provoca (sabe quando, no cinema, tem uma cena constragedora e as pessoas sentadas atrás de você dão risadinhas?).

Aí eu compreendi: a força de Polanski vem do fato de que ele se sente deveras confortável (quase em seu habitat natural) mostrando o pior e o canto mais escuro da alma humana. Ui. Quero a minha mãe.
 
 
Pegue seus amigos mais divertidos.
Vá pro clube Atlântico de Olinda, encontre gente conhecida.
Dance ao som de covers de Adilson Ramos e Sidney Magal.
E termine com o show da banda Tanga de Sereia, cujo maior sucesso tem como refrão a pérola:

Primo com prima pode
é o que ele dizia
o cara que me desvirginou
aquele filho da minha tia
 
Wednesday, October 11, 2006
 
frase da vez: "homi num presta não. homi só tem de gente os olhinho de cachorro..."
 
Monday, October 09, 2006
 
Eu estou realmente feliz. Aliviada, eu diria. Tem essas coisas na vida que fazem você pensar sobre caminhos e destinos. Justamente no momento em que eu rezava para que algo desse certo, para que algo me mostrasse o caminho e me desse conforto, eis que recebo uma notícia maravilhosa, e absolutamente surpreendente.

E isso vai me dar segurança e estabilidade. Vai me fornecer a base que preciso para construir todas as outras coisas. Mas não só: isso provou que eu ainda posso continuar acreditando em mim.

Só tenho a agradecer a todos vocês que me deram tanta força, que insistiram pra que eu me empenhasse, que deram asilo e colo. Muito obrigada. Não vou dizer nomes porque os amo demais pra isso.

Minha terapeuta vai ficar orgulhosa. E eu vou ficar um pouco mais tranqüila.

:)
 
Sunday, October 08, 2006
 
"Fui até meu quarto e apanhei o diário. Aranquei as capas. Elas eram fortes: a encadernação em pano saiu em tiras, era como arrancar os membros de um pássaro, e lá ficou o diário em cima da cama, um bloco de papel, ferido e sem asas. A última página estava virada para cima e eu li de novo: "Você nos estava ensinando a esbanjar, para que, um dia, não nos restasse mais nada, exceto este amor por Você. Mas Você é bom demais para mim. Quando eu peço dor, Você me dá paz. Dê a ele também. Dê-lhe a minha paz - ele precisa dela mais do que eu."

Pensei: você falhou aí, Sarah. Pelo menos uma das suas orações não foi atendida. Não tenho paz nem amor, a não ser por você, você. Disse a ela: "Sou um homem que odeia." Mas não estava sentindo tanto ódio, tinha chamado outras pessoas de histéricas, mas minhas próprias palavras eram exageradas. Podi detectar-lhes a insinceridade, O que estava sentindo era muito mais medo do que ódio, porque se Deus existe, pensei, e se até você - com sua paixão, seus adultérios e suas pequenas mentiras - pôde mudar assim, nós todos poderíamos ser santos dando o salto que você deu, fechando os olhos e saltando de uma vez por todas: se você é uma santa, não é assim tão difìcil ser santo. É algo que ele pode pedir a qualquer um; saltar. Mas não vou saltar. Sentei-me na cama e disse a Deus: Você a levou, mas ainda não conseguiu me pegar. Conheço Sua esperteza. É Você que nos leva para um lugar alto e nos oferece o universo inteiro. Você é um demônio, Deus, tentando-nos a saltar. Mas eu não quero a Sua paz nem quero o Seu amor. Queria uma coisa muito simples e muito fácil: queria Sarah para o resto da vida e Você a levou. Com Seus grandes esquemas, Você arruinou nossa felicidade como um lavrador arruína um ninho de um camundongo: e O odeio, Deus, eu O odeio como se Você existisse."

Graham Greene. Fim de Caso.
 
 
as três mocinhas (a loira, a morena e a intermediária) presentemente se locomovem pela cidade em três diferentes carros pretos de vidros escuros. podem ser confundidas em qualquer lugar. as línguas perigosas falam delas horrores, mas só as meninas sabem como é bom, e ruim, ser o que são, e viver exatamente como escolheram, e como podem.
 
Saturday, October 07, 2006
 
"- E você? - perguntou, segurando meu braço. - Vai fazer o quê, meu chapa?

- Eu, nada - respondi. - Vou ficar aqui, como tradutor da Unesco, em Paris.

Hesitou por um momento, com medo de me magoar com o que ia dizer. Era uma pergunta que, sem dúvida, estava coçando na ponta da sua língua fazia tempo.

- É isso o que você quer ser da vida? Só isso? Todo mundo que vem a Paris tem a aspiração de ser pintor, escritor, músico, ator, diretor de teatro, sonha fazer um doutorado ou uma revolução. E você só quer isso, morar em Paris? Nunca engoli essa história, meu velho, confesso.

- Eu sei que não. Mas é a pura verdade, Paúl. Quando era pequeno, dizia que queria ser diplomata, mas era só para que me mandassem a Paris. É isso o que quero: morar aqui. Você acha pouco?"

Mario Varga Llosa. Travessuras da menina má.
 
Friday, October 06, 2006
 
* minha irmã já vê House e Grey´s Anatomy comigo, depois de termos comido trufas belgas;
* se alguém quiser um dia me dar um presente, trufas belgas são uma ótima pedida;
* agora eu já acordo e tenho t.o.d.a. a discografia de Divine Comedy no carro, cortesia do meu amigo Lucas;
* já decidi: meu próximo namorado tocará piano;
* currently in love with 20th century American poetry;
* mas amor é para os fracos e pra ser usado de desculpa por gente de mau-caráter: eu agora só quero saber é de desilusões.
 
 
Sticks and stones may break my body
But words can tear me apart
So be careful what you tell me
Spare a thought for my heart

For my heart

Broken bones fuse together
Bruises never last for long
But once they´re said
Words stay spoken
And hearts stay broken
From that moment on...

The Divine Comedy. Sticks and Stones.
 
Thursday, October 05, 2006
 
Quadrinha dos que dizem sim


Senhor capitão, dá-me vinte cortes de vida
Para eu armar meu festim
Que tenha sangue e ojeriza,
que tenha branco e carmim

Senhor capitão, dá-me trinta onças de sonhos
Para eu lançar pela pia
Entre as sobras da janta,
que era o que em mim havia

Senhor capitão, dá-me cinqüenta dias de vênias
Ou mais de um mês de amor
Que alguém me disse que tinhas
bons remédios contra rancor

Senhor capitão, dá-me quarenta léguas de caminho
Para eu continuar a sorrir
Ainda que eu tenha que caminhar sozinho,
que me leve aonde preciso ir


(Alfama & Mouraria)
 
 
Quero me pôr a salvo de meus próprios sonhos. Tenho medo, e eles são cruéis.

Sonhei hoje que estava em uma piscina (como frequentemente acontece), com mais duas pessoas. Brincávamos de mergulhar, e, quando eu voltava para respirar, a impressão que eu tinha era que tinha tomado pouco ar antes de voltar para o fundo. Mas é claro que era uma brincadeira, e eu conseguia ficar debaixo d´água sem maiores problemas. E eu ria, e a pessoa comigo ria também, um riso como só nós dois poderíamos rir. Meu cabelo flutuava na água, pelas minhas costas, e era uma genuína sensação de felicidade e leveza (como quando somos crianças e brincamos na piscina do vizinho, sabem como é?).

Vocês dirão que não há nada novo, nem cruel, nem amendrontador nesse sonho, e estarão certos. O estranho é que, no sonho, essas sensações era lembranças de fato verdadeiramente ocorridos. No sonho eu recordava um passado. Quando acordei, passei alguns segundos para entender que tinha sonhado, e que aquilo não eram lembranças reais. Eu nunca estive numa piscina com aquelas pessoas. Aliás, tenho lembranças ruins quando as associo a piscinas.

De onde foi então que minha mente fabricou essas pseudo-lembranças felizes?
O que mais, na minha vida, foi felicidade fabricada?
Quais lembranças eu julgo guardar e que, na realidade, não passam de sonhos incômodos?
 
Tuesday, October 03, 2006
 
E tudo só me fez lembrar Drummond:

"Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles."
 
 
Remexendo arquivos, encontrei esse projeto de texto/conto, escrito em janeiro deste ano. Não sei pra quem nem por que o escrevi (eu que escrevo de forma quase sobrenatural, como um jorro que vem, e vai, e se perde depois), mas me assombro com o tamanho do buraco que eu nem sabia (ainda) que existia:


Lamento


Pinga, pinga seu Zé. Só por hoje eu vou esquecer de te ouvir, fingir que te ignoro pra ver como me viro. Foi-se, seu Zé. Partiu-se. Perdeu-se. Tudo o que eu ainda guardava de sonho foi passear; esqueceu-se de que fiquei aqui, esperando.

Eu continuo lá, talvez ainda pensando se volto. O problema, seu Zé, foi que voltei. Mas deixei lá um pedaço que não posso mais recuperar. Areia, areia, seu Zé. Acho que foi tudo coberto por areia. Aquelas tardes, aquelas estradas. Sepultadas sob pés de areia, insepultas nessa carcaça que agora chora o que nunca teve. Se eu pudesse voltar, ainda estaria aqui?

Passei todos esses anos me perguntando. E agora a resposta não existe mais, ainda que eu pudesse, quem sabe, encontrá-la. Morreu. Sumiu. A resposta foi lá, rir-se da minha sina. Mas pinga, seu Zé, pinga. Manda chamar aquele menino que toca violão e ordena uma música triste. Depois eu dou uns trocados. Manda tocar uma música sobre tudo o que se perdeu. Meus anos, meu destino; veja bem, seu Zé, esse destino que eu inventei pra mim. E que agora não pode mais. Tenho que arrumar outro, ou me pôr embaixo de terra também.

Nem me venha falar de curar essa dor. Essa dor é minha, o que pode você saber dela? Essa dor me enoja, me ferve, mas é minha. Pode ser a única coisa que me reste daquele tempo. Essa dor, essa saudade, seu Zé. Entende? Esse abandono. Eu tenho todo o direito do mundo de chorá-la. Você não, você me sirva mais um pouco, vai. E manda trazer o menino.

Porque eu sempre pensei que ainda poderia consertar as coisas. Havia sempre essa brecha malvada, que me perseguia, e eu sempre pensei que poderia me aproveitar dela assim, meio que de soslaio, sabe? Sem que ninguém percebesse. Eu estaria lá quando precisasse. Foi isso o que me tiraram agora: essa possibilidade. O que é uma pessoa sem possibilidades, seu Zé? É uma grande reta para o buraco debaixo da terra. Agora, eu sou essa flecha lançada, apontada para a escuridão; sequer tenho possibilidade de alterar mais o meu curso. Perdi-me.

Sabe que eu nem me lembro mais de muita coisa? Virou tudo um troço só, um cheiro. Pronto, isso mesmo, um cheiro. Ou um determinado tom de azul. Ali se fundiram todas as lembranças, como num porto, onde todos os navios são na verdade um só. Chegam, vão. Também cheguei, também fui, mas as lembranças se enfiaram por debaixo da minha pele e agora eu não consigo mais expulsá-las. Pinga, seu Zé, vai, pinga logo... que essa lua, essa música e essa perda sem tamanho — porque nunca tem tamanho o que se perde de dentro pra fora — vão ter que acabar de matar o que ainda sobrou do que eu fui.
 
 
por vezes penso que o melhor a fazer é trancar-se em casa, evitar todo e qualquer contato com seres humanos e rezar pro apocalipse não demorar.

mas não. seria a suprema covardia. o melhor a fazer é sempre sair e dançar.
 
Monday, October 02, 2006
 
minha irmã, que é minha irmã, que é minha irmã.

o resto é circunstância.
 
 
You fool me once, shame on you.
You fool me twice, shame on me.
 
Sunday, October 01, 2006
 
Sim, foi assim
que a minha mão
Surgiu de entre o silêncio obscuro
E com cuidado,
guardou lugar
À flor da Primavera e a tudo

Madredeus. As brumas do futuro.
 

My Photo
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A princesa do conto era uma vez.

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