Magic Talking Looking-Glass
Tuesday, October 31, 2006
 
diários antigos.

novembro de 2004.

Então eu li um texto de Lilo que falava justamente sobre a automutilação do amor. E me pus a pensar: se amar pressupõe perda — de parte de nós mesmos que doamos ao outro —, exatamente quanto de nós já deixamos por aí, espalhados em nossos ex-amores? E quanto dessa perda nós carregamos para sempre, pesando sobre os nossos futuros-amores?

Os ex tudo que povoam nossas histórias (com h mesmo) pessoais. Ex-maridos, ex-namorados, ex-melhores amigos. Essas pessoas a quem doamos de bom grado pedacinhos de nós mesmos, nacos por vezes tão vitais, especiais e únicos, o quanto de nós eles levam, e incorporam a suas vidas? E como esse buraquinho em nós vai latejar?

Parece-me que a troca de sentimentos humanos é um rio contínuo de tirar daqui e por lá. Se o amor que eu sinto por alguém transfere, por força e corpo próprios, uma parte de mim ao outro, que por sua vez me dá um pouco de quem ele é, essa pessoa (imperfeita) que hoje eu sou é uma espécie de monstro de Frankenstein. É feita de pequenos arremedos, pequenas peças costuradas aos trancos e barrancos, sobrando muito aqui, faltando um pouco lá, onde o outro tirou demais e eu me esqueci de preencher outra vez.

Até aí me provocou o texto que eu li. Quando eu amo, eu me dou, e isso vai doer, é claro. Tirar de mim para dar ao outro dói muito. Mas dói gostoso. A dor é velada, e imediatamente aplacada pelo que se recebe quando o amor é recíproco. E eu já recebi presentes inomináveis, pedaços tão especiais de pessoas tão especiais a quem eu nunca vou conseguir propriamente agradecer.

Só que o processo não se perfaz aí. Por causa do amor de amanhã.

E porque o texto mencionava filmes, eu também quero apontar um: Amores Brutos, e o “Porque também somos o que perdemos”. São essas cicatrizes das nossas perdas passadas, que coçam nos nossos amores presentes, incomodam na nossa capacidade de reconstrução. Carregamos conosco as feridas e os ungüentos. Porque são marcas eternas, que milhares de beijinhos não serão capazes de sarar, nem há crise de ciúme que arranque e tire de nosso corpo o que de bom elas deixaram. O quanto de outra, daquilo que ela deixou em meu amor, eu amo também, porque já faz parte de quem ele é? O quanto de meu ex-amor se incorporou ao que eu sou e é hoje também amado? Do que eles provocaram, do que eles trouxeram, do que eles roubaram. É um mistério insondável.

De tudo o que perdemos, de tudo o que ganhamos, percebo que não somos. Ser é um verbo que só se aplica ao núcleo. Todo o resto é estar, é ser hoje apenas, porque ainda não chegou a ser perdido, nem a nada foi acrescentado. Será que o importante mesmo é amar o núcleo pelo que ele é ou amar também é beijar as cicatrizes, e louvá-las pelo que elas representam?

Na dúvida, ficam versos de Neruda. Belos e utópicos; é o que todo mundo queria poder dizer. Esse pequeno boneco de recortes aqui ainda tem muito que aprender. Sempre.

Antes de mim
Não tenho ciúmes.

Vem com um homem
Às tuas costas,
Vem com cem homens entre os teus cabelos,
Vem com mil homens entre teu peito e teus pés,
Vem como um rio
Cheio de afogados
Que encontra o mar furioso,
A espuma eterna, o tempo!

Traz todos eles
Para onde eu te espero:
Sempre estaremos sós,
Sempre seremos tu e eu
Sozinhos sobre a terra
Para começar a vida!
 
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