Outra tarde eu estava entrando na locadora quando ouvi a atendente gritar lá de dentro: "aline! hoje tem House!". Isso me fez pensar no quanto é boa a sensação de familiaridade, especialmente quando se está mais fragilizado. Tudo na minha vida gira com essa nota de costume: os amigos de década, o oftalmologista da família inteira, a ginecologista que é a mesma desde a primeira consulta, os vizinhos há quase quinze anos. Todo mundo adora se sentir em casa, claro.
Com o cabeleireiro ontem foi a mesma coisa. Desde que descobri Mário não concebo cortar o cabelo com outro. Pra mim é um spa: fico a tarde inteira naquele casarão antigo, no absoluto silêncio. É um dos poucos lugares onde ninguém te aperreia nem tem alguma musiquinha insuportável tocando no fundo. É um ritual. Quando chego, ele sempre me faz sentar por uns bons minutos, pra respirar (só o trânsito até chegar lá já me exaspera). Depois conversamos amenidades, e ele pergunta por mariana e mamãe. Sento-me na cadeira e começamos a discutir o que fazer com o cabelo. Ele faz algumas ponderações, depois pede licença para pegar nos fios e examiná-los com cuidado. Ontem sugeriu que eu não prendesse tanto o rabo de cavalo: o hábito deixava marcas visíveis.
Só depois pergunta se pode passar a tesoura.
Ontem , quando Mário perguntou se eu queria mudanças, percebi que tinham sido muitas. Pedi então que ele cortasse o quanto achasse necessário, porque eu queria me livrar de todo o cabelo velho. Familiaridade é ótimo, mas o tempo todo é coisa de gente que já morreu e ainda não se deu conta; a estranheza é um antídoto precioso e necessário.
Mário me olhou assustado, confirmou se era isso mesmo o que eu queria, se poderia cortar. Disse-lhe que sim, claro. Ele sorriu, esfregou as mãos com um sorriso de menino treloso, e soltou: "eu adoro quando ela chega aqui assim, com essa
vontade toda".
E eu me senti limpa vendo cair longas mechas do meu cabelo; essas mechas que tinham vivido tanta coisa, e que ainda guardavam lembranças.