Magic Talking Looking-Glass
Wednesday, December 27, 2006
 
Pra matar a sede de sangue


"Nova York, 1921.

Se os homens pudessem um dia se recriar ao seu jeito, uns ficando 3/4 órgãos sexuais, outros 9/10 barriga, outros 2/3 cabeça, alguns orelhas enormes para ouvir músicas, uma classe numerosa seria a dos 9/10 coração. Corações enormes espetados nuns gravetos de perna. O bastante para poderem andar e se mostrar. Corações bem encarnados - ou rubros - exibindo-se voluptuosamente nas ruas, nas festas, nas procissões. Escorrendo sangue pelas ruas. Sarapintando tudo do seu sangue fácil.

Isto seria evidentemente a delícia de muita gente: ficar só coração. Mas um coração à vista. Nada de camisa nem de paletó por cima desse órgão. Corações lubricamente nus e à vista.

Há exibicionistas do coração como há exibicionistas do órgão sexual.

Molnar classificou uma vez os exibicionistas do coração seus conhecidos. São parecidíssimos com os exibicionistas do sexo que a ciência estuda e classifica. Os mais numerosos, como os sexuais com a braguilha, como que fingem se esquecer de abotoar a camisa, deixando uma ponta de coração de fora.

Escreve Molnar dessa primeira classe de exibicionistas que "agem como por acidente". Deixam, com efeito, o pedaço do coração à vista, pela abertura da camisa; e quando alguém lhes chama a atenção para o faux pas, ficam encarnados, mostram-se incomodados, abotoam depressa a camisa.

Outra classe é a dos que põem rouge ou carmim no coração. São indivíduos estes, diz Molnar, que não julgam estar com o coração bastante vermelho. Pelo que estão sempre lhe esfregando rouge por cima.

A terceira classe é a que se poderia chamar a dos sem-vergonha do coração. Segundo Molnar, estar sempre a ostentar o coração, à maneira de meninozinhos de um ano ou dois ou três a quem os pais precisam estar a dizer que não levantem o timão até o pescoço quando há gente de fora em casa.

Ainda outra classe, na classificação de Molnar: os que, diz eles, brincam de esconder com os corações. Guardam os corações da vista dos outros como se fossem uns grandes pudicos. Mas ficam indignados se os outros não procuram e descobrem logo os corações escondidos.

Mas há ainda uns voluptuosos do coração que Molnar não sei como se esqueceu de fixar, e cuja volúpia não se contenta em exibir o coração próprio, mas se estende a procurar ver o dos outros para comparações indiscretas, pedindo aos outros que lhes deixem ver os corações guardados ou escondidos. Como que desabotoam com impertinência paletós e camisas. Como que rasgam às vezes peitilhos de casacos.

Os extremistas desta classe devem ser aqueles que assassinam a punhal ou faca de ponta procurando o coração; para gozá-lo ainda vivo nas mãos; não se contentando senão com o coração arrancado do peito como uma goiaba espapaçada de madura."

Gilberto Freyre. Tempo Morto e Outros Tempos.
 
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A princesa do conto era uma vez.

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