Essa coisa de crescer é curiosa. Durante toda a faculdade, eu odiava direito penal e processo penal. Nunca aprendi. As professoras me pareciam malucas e neuróticas, e acho que isso, juntamente com a preguiça mental de tentar entender a lógica de um sistema totalmente fora da minha realidade, fez com que eu evitasse essas disciplinas. Todas as vezes que alguém dizia "ah, faz tal concurso", eu já retrucava "ih, não, cai penal!". O fato é que eu me formei sem saber bulhufas de direito penal.
Aliás, eu me formei sem saber bulhufas de porra nenhuma mesmo. Eu gostava de direito civil e filosofia do direito, e tive a cara de pau de prestar o exame da OAB para civil (pra quem não é da área: fazer isso é considerado uma loucura, porque é a mais ampla das disciplinas), só porque penal era muito chato, mesmo que fosse (em tese) muito mais fácil.
E o fato é que esse ano, quando eu resolvi estudar, logo percebi que teria que estudar penal, assim como direito do trabalho (que eu também sempre detestei). Bem, quanto ao trabalhista, parece que o problema está meio que remediado, porque já provei pra mim mesma que podia aprender, com alguma dedicação, ainda que capenga. Cumpri minhas metas nos concursos da justiça do trabalho e do MPT; para além de minhas expectativas, aliás.
Falta aprender penal e processo penal. Prometi a mim mesma que leria os livros de cabo a rabo. Eu me devo essa superação do problema. E o fato é que agora eu sempre tenho a estranha vontade de estudar penal, como se eu ficasse feliz em me esforçar para superar uma falha. Minha terapeuta chama isso de "tapar buracos passados". Eu chamo isso de restaurar a confiança em mim mesma.
Tudo isso pra dizer que meu pai estava certo ao nos educar: ele sempre disse, aos três, repetidas vezes, que qualquer um de nós é capaz de aprender qualquer coisa, qualquer coisa mesmo. Ele dizia que se a gente quisesse ser astronauta, era só uma questão de disciplina pessoal e dedicação. Que éramos tão capazes de realizar qualquer coisa quanto qualquer outro ser humano. Eu sempre critiquei isso dele, achando que essa ladainha nos fez crianças responsáveis demais, exigentes demais, duras demais consigo mesmas. Quando levávamos nossos boletins perfeitos, papai nunca nos louvava, ele simplesmente dizia "está vendo como você conseguiu melhorar a nota?" ou então perguntava a razão pela qual minhas notas dez em redação e história não se repetiam em matemática e física. Eu achava isso cruel, o que nos levou a vários desentendimentos e a uma coleção de mínimas mágoas. Achava que ele queria que fossemos perfeitos.
Hoje vejo que ele acertou; eu é que não entendia que ele nunca nos cobrou perfeição. Ele sempre trabalhou para fortificar nossa auto-confiança. O que ele sempre quis (e conseguiu) foi que seus filhos soubessem que eram capazes de fazer e ser qualquer coisa que escolhessem e a que se dedicassem. Dia desses ele resumiu assim: "eu quero que você seja a melhor aline que puder ser". Então eu compreendi: não se tratava de um dever de excelência em comparação aos outros, mas um hábito de fidelidade ao que escolhemos ser, ao melhor que pudermos fazer. Ele acertou, apesar de tudo.
Mesmo que para mim, nesse exato momento, exercitar minha capacidade de superação seja algo tão simples e banal quanto aprender direito penal.