Magic Talking Looking-Glass
Saturday, September 30, 2006
 
Estava relendo meu caderninho. Aquele, ainda, com uma estrela vermelha pintada na capa. Tinha prometido a mim mesma fazer um novo, mas, alas!, promessas são quebradas o tempo inteiro e eu sei disso bem demais. Rebus sic Stantibus.

Trocar o caderno seria, talvez, uma forma de limpar tudo. Zerar. Tenho pensado muito em como eu queria essa chance de começar do começo outra vez. É confuso tentar explicar.

Três grandes amigos meus estão indo embora do Recife semana que vem, deixando um fardo de saudades. Victor, Mari, Albino. São pessoas que conviveram tanto comigo, que estiveram do meu lado em momentos tão ruins e tão bons...

Lembro de um jantar no meu finado apartamento, em março deste ano, em que Mariana fez pães recheados e melamos a casa inteira de ovo e farinha, e Victor levou cigarrilhas chiques pra gente fumar declamando poemas. Ficamos até quase quatro da manhã brigando por poesia (acho que acabou em Neruda), e a casa no outro dia parecia um campo de batalha. E ali eu fui verdadeiramente feliz. Naquele dia, eu tinha tudo.

Lembro de uma farra que acabou às cinco da manhã, no nascer do sol do Marco Zero, e Albino estava lá, e Luciana e Paula. A gente exausto do tanto que tinha se divertido. E ali também - quando eu já tinha perdido tanto - eu fui verdadeiramente feliz.

Pois esses amigos irão recomeçar suas vidas em outras cidades. Com outros amigos. Eles vão ter a chance de zerar, não é verdade? Lá - pra onde quer que eles vão - ninguém sabe de suas falhas, ninguém lembra de algum episódio terrível que eles protagonizaram. Em resumo, lá eles vão ser como bebês, livres de predicados.

Eu queria ser limpa, livre de passados tormentosos, queria que as pessoas, ao me conhecerem, soubessem apenas do meu nome. E me dessem chance de me reconstruir (yet again). E não se fechassem em ouvir dizer, ou em lembranças alheias, ou em impressões generalizadas. Queria que as pessoas pudessem ver além do que se vê. Queria me dar chances.

Porque, se não for assim, serei sempre a incompreendida. No olho do furacão.

E nem quanto a isto eu posso pedir perdão, porque seria uma traição à verdade.
 
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A princesa do conto era uma vez.

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