Quando a Veja chegou no fim de semana, meu pai disse que eu deveria ler a coluna de lya luft. soltei um indiferente "depois eu leio, papai", e voltei a fazer o que estava fazendo. ele insistiu. depois aceitou - coisa raríssima - o fato de que eu só leria o artigo quando quisesse, de que não me venceria pela insistência. (meu pai tem isso de achar que tudo tem que ser feito na hora que ele acha que deve ser feito).
passou a semana e eu não li o artigo.
hoje vi a revista, arrumadinha que estava, em cima da mesa de jantar.
e entendi porque meu pai queria que eu lesse o tal artigo: era o jeito dele de dizer que me amava assim mesmo como eu sou.
o artigo partia daquela idéia de a criança que fomos molda o adulto que somos. e tangencia a relação pais e filhos, a necessidade de compreensão do outro, os perigos da exigência de perfeição. vão lá ler. a mim, não importa muito o que lya luft falou, importa somente o que meu pai quis me dizer através das palavras dela.
ele, que passa por momentos tão difíceis. ele, que agora, estudando Direito, me procura para tirar dúvidas, perguntar opiniões, pedir ajuda. ele, com quem eu tanto tenho conversado, como talvez nunca tenha feito na vida. ele, que tem se esforçado para que eu me sinta acolhida, amada, protegida, que tenta me dizer que me ama também pelas minhas imperfeições, e pede que eu o ame pelas dele.
o que importa foi que, ao insistir para que eu lesse o danado do artigo, meu pai me dizia: "minha filha, você nunca precisou ser perfeita. você só precisa ser você, do jeito que você é, e como escolheu ser".