Não fui trabalhar hoje. Minha garganta me matava.
E fiz então a única coisa que se deve fazer quando a alegria dá as costas a você: eu chorei pra cacete. Lembrei de um tempo (não faz muito tempo) em que eu podia andar pela vida sem me arrastar nos nós amarrados nas minhas pernas, em que eu podia me permitir acreditar. Eu apostava na vida, porque sabia que, de um jeito ou de outro, eu não podia perder.
Agora não. Agora eu me desiludo. Agora eu penso que sempre fui boba, que sempre procurei conservar uma pureza em mim que não tem lugar no mundo, que já saiu de moda.
E esse luto me fez lembrar um poeminha que alguém me escreveu... há tanto tempo que parece que foi em outra vida. Foi quando eu ainda era criança, e éramos inocentes aos olhos do mundo. Não sei por onde anda esse poeta, nunca mais ouvi falar dele, vai ver até já morreu. Queria que ele soubesse o quanto ele foi importante pra mim. Ele que me fez tão linda, como eu sempre quis ser, como um dia eu fui.
E foi tudo isso, e muito mais, o que se perdeu. E o poema tinha um trechinho que dizia assim:
"mas no giro de noite & dia o sossego
não vem; e não passa tampouco
aquilo que na noite é medo
aquilo que na noite é pouco
aquilo que na noite é o simples
não estar do meu amor.
não passa, enfim, minha dor;
não passa, enfim, meu amor
no caminho de pedras roídas
na areia vermelha do deserto
nas doídas investidas
nunca sequer tentadas. e é certo:
meu amor não passa na estrada
que leva ao umbral da porta
onde pus o meu futuro.
não ultrapassa aquele muro
de vento, de tempestade, escuro
sob a lua que míngua, enlutada.
e pela rua em que sangra, agoniza,
um projeto de eternidade
e um cinto de castidade,
me apanho, curvado, colhendo seixos
vermelhos, azuis, amarelos, e os deixo
pelo labirinto do sonho, onde os largo
atrás, para a viagem de regresso."
Se um dia eu o encontrasse, e ele lembrasse de quem eu fui, pediria que me escondesse: a minha viagem de regresso é por certo mais longa, e eu nunca poderia chegar do mesmo jeito que parti.