Magic Talking Looking-Glass
Tuesday, August 22, 2006
 
Cada vez mais eu me impressiono com a quantidade de gente que se esconde da vida, que passa a vida toda se escondendo da verdade.

Comecei a perceber isso com minha avó. Depois que vovô morreu, ficou tudo insuportavelmente difícil pra ela. Então ela parou de ouvir música (porque, evidentemente, todas lembravam vovô). Parou de querer sair, sob o argumento de que não via mais graça em nada. Parou de se interessar pelas outras pessoas ao seu redor, porque nenhuma delas poderia entender a profundidade de sua perda.

Tudo bem que no caso de vovó é depressão mesmo. Ela agora até já está bem melhor. Mas tudo começou porque ela simplesmente não conseguia aceitar a perda in the first place. Não que ela estivesse errada... cada um vive como quer (como diz o título daquele filme com Jack Nicholson) ou como pode.

Mas aí eu comecei a observar os outros. Minha mãe. Certos amigos. Eu mesma. A gente vive se escondendo. Tem gente que vai pro cinema pra se esconder e se abster de encarar certos fatos de frente. Tem gente que vai pra festinhas. Tem gente que mergulha em teorias religiosas. Tem gente que faz ginástica 3 hs por dia. Tem gente que acompanha um bando de seriados inúteis na tv. Tem gente que lê compulsivamente. Tem gente que só consegue se comunicar pelo msn. Tem gente que estuda como se precisasse provar por mundo que é muito capaz e inteligente. Tem doido pra tudo.

E a única verdade é que nenhuma dessas coisas são, de fato, o que a gente busca. São só brinquedinhos que fazem a vida passar mais rápido, e de forma menos indolor. Brinquedinhos muitas vezes necessários, devo admitir, mas ainda assim perigosos. Perigosos porque nos isolam, perigosos porque se tornam máscaras, perigosos porque depois de pouco tempo se esvaziam.

A verdade, meus amigos, é que a vida está sempre no espaço entre pessoas. Esse lugar tão difícil e cheio de meandros.

E tudo isso me fez lembrar de um trecho muito específico de Tabacaria (poema que parece me acompanhar de maneira sobrenatural). Mas sabe o que eu acho mais lindo no poema? É que o autor resolve voltar atrás: ele vem se lamentando de suas fraquezas, de sua covardia ("Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz"), de suas circunstâncias, de seu desamparo, até que, em certos momentos, ele gira a chave e resolve se desdizer.

Eita, mas isso é tema pra outro dia.

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
 
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