Meu papel de parede é um Chagall. Lindo e azul, naquele certo tom de azul que só um Chagall tem. Eu nunca tinha visto essa obra, nem sei como se chama. Já fui na Cultura, cacei em livros de pintura, botei no google. Sei que, se eu realmente quisesse descobrir sobre ela, não seria muito difícil.
Mas não quero. Eu adoro mistérios.
A vida é um mistério. O amor é um mistério. Chagall é um mistério. As tapeçarias de unicórnio de Cluny são um mistério. São os mistérios que fazem você sentir gosto no correr chato dos dias.
Pois o Chagall é assim: um mar/céu azul-chagall, que circunda um casal. Ela, de noiva, espalha seu vestido branco, e abraça seu noivo, como se quisesse dizer: "proteger-te-ei de todo mal, porque és meu e eu sou tua". Seu buquê está no chão (ela o largou para se agarrar ao seu amor?). Brotam rosas dos galhos de uma velha árvore e pombas passeiam. No alto, à esquerda, um sol em vermelho/laranja, branco e amarelo-gema, onde alguém toca uma flauta. E eu vejo vultos pela composição, uma lua não sei onde, uma estranheza familiar, como os meus sonhos. Eu sonho Chagall.
O mistério do meu Chagall é a sensação que ele me provoca. Olho para ele como quem olha para um unicórnio, único, raro, de uma beleza infinita e assustadora, e que precisa ser urgentemente protegido, e amado. Mas que requer renúncia, como aquela tapeçaria francesa. Amado com um amor desconhecido, como o da noiva na tela. Como alguém que tem o segredo do universo, mas deve conservá-lo dentro de si como uma semente.
- A Mon Seul Désir.