Magic Talking Looking-Glass
Meu papel de parede é um Chagall. Lindo e azul, naquele certo tom de azul que só um Chagall tem. Eu nunca tinha visto essa obra, nem sei como se chama. Já fui na Cultura, cacei em livros de pintura, botei no google. Sei que, se eu realmente quisesse descobrir sobre ela, não seria muito difícil.
Mas não quero. Eu adoro mistérios.
A vida é um mistério. O amor é um mistério. Chagall é um mistério. As tapeçarias de unicórnio de Cluny são um mistério. São os mistérios que fazem você sentir gosto no correr chato dos dias.
Pois o Chagall é assim: um mar/céu azul-chagall, que circunda um casal. Ela, de noiva, espalha seu vestido branco, e abraça seu noivo, como se quisesse dizer: "proteger-te-ei de todo mal, porque és meu e eu sou tua". Seu buquê está no chão (ela o largou para se agarrar ao seu amor?). Brotam rosas dos galhos de uma velha árvore e pombas passeiam. No alto, à esquerda, um sol em vermelho/laranja, branco e amarelo-gema, onde alguém toca uma flauta. E eu vejo vultos pela composição, uma lua não sei onde, uma estranheza familiar, como os meus sonhos. Eu sonho Chagall.
O mistério do meu Chagall é a sensação que ele me provoca. Olho para ele como quem olha para um unicórnio, único, raro, de uma beleza infinita e assustadora, e que precisa ser urgentemente protegido, e amado. Mas que requer renúncia, como aquela tapeçaria francesa. Amado com um amor desconhecido, como o da noiva na tela. Como alguém que tem o segredo do universo, mas deve conservá-lo dentro de si como uma semente.
- A Mon Seul Désir.
Dia desses me fizeram uma pergunta interessante: como é que se faz pra ser diferente do que se é? É uma boa pergunta. Tem horas na vida, quando você mesmo é seu pior inimigo, em que tudo o que você quer é escapar da sina de ser, justamente, quem você, até hoje, sempre foi.
Até aí tudo bem... todo mundo, mais cedo ou mais tarde, acaba tendo que contorcer as suas idiossincrasias pra tentar sobreviver. A vida é mesmo um esporte de superação. O que me pegou foi pensar que, se eu devo deixar de lado os veios do que eu sou, como diabos vou me reconhecer quando tomar a atitude correta? De que adianta acertar, se me deixo ficar, pedacinho por pedacinho, pelo caminho?
Quebrei minha cabeça. Achei melhor nem conversar sobre isso com a terapeuta, já que tento conter despesas. Fui tentar meditação.
Então lembrei de todas as vezes em que tive que tomar decisões difíceis. Meu maior desafio era não deixar que o medo me paralisasse. Eu confiava no meu taco, ainda que nunca soubesse muito bem como iria pagar a aposta. E cheguei à resposta: não se pode ser diferente; o que dá pra fazer é fechar os olhos e confiar nos próprios pés, e rezar pra que eles achem o caminho. Eles sempre sabem por onde ir, mesmo que você se desespere por não entender por onde anda. Você sempre acaba chegando exatamente onde deveria estar.
- Keep your eye on the prize.
(ps: sil, esse post é pra tu, e tu sabes a razão. obrigada por me incentivar a procurar respostas.)
Quando eu apaguei o antigo blog, algumas (poucas) pessoas reclamaram. Perguntaram razões. Indagaram causas. Pesquisaram efeitos.
Minha única explicação foi: eu já não era mais a mesma. Nunca se é o mesmo depois de grandes reviravoltas; a não ser, é claro, que você seja uma sequóia. Nesse caso, sugiro que você fique plantado em algum templo budista, expandindo raízes.
Eu não. Mais uma vez, vou pedir o socorro das palavras para me recriar.
- So, Magic-Talking-Looking-Glass, what have you got to tell me this time?